Thursday, October 20, 2016

"Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
'Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!'
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

'Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!'
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

'Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!'
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

'Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci um simples vaga-lume?'"

(Machado de Assis, "Círculo vicioso", p. 130)

O círculo vicioso. Creio eu que este assunto seja o mais prevalente no mundo de hoje: difícil é encontrar pessoas que são satisfeitas com as suas circunstâncias. Mesmo que tenhamos lido sobre vários outros assuntos humanos ao longo do semestre, este parece estar na raiz de todos os demais. Por todo lado, vemos pessoas que querem ter a vida de outra gente, sejam as outras mais ricas, mais famosas, mais felizes nas carreiras, com mais tempo de relaxar, com relacionamentos mais excitantes, ou com quase qualquer coisa que o que está o fitando não parece ter.

Sabemos pelas autoridades gerais da Igreja que a mídia social contribui muito a esse problema. Quando postamos a respeito das coisas mais legais e notáveis de nossas vidas, mas mal mencionamos as coisas cotidianas ou ruins, as pessoas que nos seguem na mídia social pensarão que temos vidas legais e perfeitas, pois não vêem que nós temos lutas e momentos tristes. E, nós também veremos aquilo que as pessoas que nós seguimos na mídia social, que é agradável, e pensaremos que as nossas vidas não são tão boas mesmo. E assim vai o círculo vicioso.

Gostei muito do jeito que Machado de Assis apresentou o assunto humano por meio do artifício. Por utilizar bichos e objetos celestiais, deu um ar mais leve ao poema, talvez para demonstrar as suas crenças sobre como agimos. Pelo título, ele diz que pensa que o que acontece não parará, mas que sempre vai ser assim. E que sempre será vicioso.

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