Thursday, September 29, 2016

"Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida."
(Clarice Lispector, A Imitação da Rosa, 4)


       Por algum motivo, quando li este conto por Clarice Lispector pela primeira vez, essa passagem me tocou mais do que qualquer outra. No início, pensei que é verdade, que uma coisa interessante de ser humano é aquela sensação boa de estar cansado, de ficar com sentimentos bons de estar fazendo coisas que valem a pena de gastar tempo as fazendo. Isso até se reflete em pessoas que não estão a fazer coisas que cansam--e certamente todos nós conhecemos pessoas assim (quer que gostariam que está-las fazendo ou não). Até líderes da Igreja têm falado a respeito disso, que trabalho é bom e que um emprego louvável é algo que todo homem deve ter, algo respeitável e algo em que ele pode ter orgulho e satisfação. Agora, voltando àqueles que ficam passando os dias sem trabalhar, nem estudar, nem querendo começar algo digno, consegue-se ver neles um destacamento triste. Não falo daqueles que querem mas não conseguem, falo dos que conseguiriam, se quisessem.
   
       Depois desses primeiros pensamentos, vi a passagem com olhos diferentes quando a li pela segunda vez. Fala que uma pessoa perfeita, descendida de Marte, teria pena da gente terrena que cansa e fale. Mas será que uma pessoa verdadeiramente perfeita não se cansaria? Talvez uma perfeição física, mas creio que uma parte que nos faz bons é esta capacidade de que falei anteriormente de poder nos cansar, e ter a satisfação acompanhante.

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