Thursday, September 8, 2016

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas."
(Machado de Assis, A Cartomante, 16-17)

       Toda história tem partes. Uma delas é conhecida de a complicação, que frequentemente vem do erro dum personagem, que então há de consertar aquilo que fez. Creio eu que Machado de Assis neste conto mostra algumas características de pecado que constantemente nos acercam, seja que os reparemos ou não. O grande pecado de Camilo é claro no conto: ele traiu o melhor amigo dele, juntamente com a mulher deste amigo. Mais, na hora que quis sair da situação, achou que não pôde, porque estava envolvido demais. O pecado não perdoa, não vai nos afrouxar com suas mãos frias e odiosas. O perdão que recebemos vem de outro lugar, mas nunca do pecado mesmo. Para evitar esta existência triste e escura, é necessário que evitemos o pecado no primeiro lugar.
       
       Diz a última frase desta passagem que Vilela nem suspeitava traição, e como podia? Camilo e Rita eram as pessoas mais amadas, um, o melhor amigo dele, que amava desde infância, e a mulher com que tinha-se apaixonado na província. Suponho que Machado de Assis desejou mostrar que não podemos nos confortar com o que outras pessoas dizem a respeito de nossas vidas, pois não sabem tanto quanto elas pensam saber. Mesmo que sejamos gente boa e simpática e feliz, todo mundo tem três caras, como diz o provérbio japonês. O primeiro, mostramos para o mundo inteiro. O secundo, para amigos íntimos e familiares. E o terceiro, que é o mais autêntico, e aquele que somente nos mesmos sabemos.


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