"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."
(Machado de Assis, A Cartomante, 15)
Essa idéia escrita por Machado de Assis me fez pensar na condição do ser humano de ter que possuir uma crença sobre tudo que pode, ou caso não tenha, de obtê-la de uma outra pessoa. Ninguém simplesmente fica do lado das coisas sem querer formar opiniões ou acreditar--geralmente em uma forma forte--em uma coisa ou a oposta. Por isso, a competição e tao forte na sociedade global; quem ganha, e o melhor. Atletas profissionais ou atores famosos podem falar de suas crenças políticas mesmo que não tenham uma educação superior nesses tópicos, e aí as pessoas que se considerem "comuns" (ou seja, as que não são famosas ou ate bem-conhecidas) vão colocando sua fé naquilo que essas pessoas disseram.
A coisa perigosa segue logicamente: se há um ponto de vista que as pessoas mais ricas e famosas geralmente têm, as outras serão influenciadas por isso, mesmo que não tenham as mesmas condições de vida. Creio que um exemplo disso se encontra na situação política americana hoje em dia. As pessoas em poder querem que todo mundo siga um pensamento mais liberal, ainda que nem sempre seja o melhor por aquelas que não estão em poder. Mas, porque é natural querer seguir pessoas bem-sucedidas, essas crenças ficam populares ao longo do tempo.
Por isso fiquei pensativo sobre Camilo. Nem crê, nem nega. Nem quer. Somente existe. Pode ser que isso o leve de ficar mais tranquilo na vida, ou pode ser que o faz ser desdenhoso para com aqueles que crêem deveras, ou não crêem, ou negam, ou não negam. Ou talvez simplesmente tira dele um pouco daquilo que nos faz humano.
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