Thursday, September 15, 2016


"Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses apontamentos valem alguma coisa, pague-me também com um túmulo de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino sermão da montanha: 'Bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados'."
(Machado de Assis, O Enfermeiro, pp. 6)

       De acordo com o mundo, há duas coisas que realmente se valem: o poder, e o poder que se compra com dinheiro. Vemos isso por todo lado, seja com escravidão que existia antigamente em muitos países (e ainda existe em alguns lugares), seja na história com monarcas e imperadores que controlavam as vidas dos outros, ou seja hoje em dia, quando a política e a economia se baseiam em gente que estão em poder. Pessoas e famílias que são menos afluentes têm bastante dificuldade, e vivem num estado constante de ansiedade, porque há conta e dívida por todo lado. Mesmo que não se importe com luxo nem ostentação (que torna cada dia mais difícil com nossa cultura de 'possuir e ser popular'), o fato simples é que dinheiro é necessário para sobreviver, até com as necessidades.

       Contrastemos isso com as palavras verídicas do Salvador: "Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra...". Certamente esta mensagem é o oposto completo do que o mundo (e Procópio) pensam. Cristo ensinou que o reino dele não é deste mundo, e que os que são mansos--ou seja, que não são ricos nem vãos--são os que herdarão a terra quando os pensamentos do mundo não prevalecerem mais.

       Entretanto, Procópio sabia tanto quanto qualquer outro o valor que o mundo coloca em dinheiro e o poder subsequente. De verdade, talvez até soubesse melhor, pois até os 42 anos, não tinha nem dinheiro nem respeito. Mas depois, ficou sabendo de como as pessoas que possuem são tratadas pelos outros. E eu creio que um dos temas mais poderosos do conto é como Procópio mudou como consequência da herança do coronel: antes, ele foi paciente e bondoso, e até planejou em doar a herança toda, mais depois de recebê-la, trocou de pensamento e doou pouco, mas guardou a maioria para si mesmo. Queria aquelas duas coisas que, de acordo com o mundo, realmente se valem.

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