Thursday, September 29, 2016

"Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida."
(Clarice Lispector, A Imitação da Rosa, 4)


       Por algum motivo, quando li este conto por Clarice Lispector pela primeira vez, essa passagem me tocou mais do que qualquer outra. No início, pensei que é verdade, que uma coisa interessante de ser humano é aquela sensação boa de estar cansado, de ficar com sentimentos bons de estar fazendo coisas que valem a pena de gastar tempo as fazendo. Isso até se reflete em pessoas que não estão a fazer coisas que cansam--e certamente todos nós conhecemos pessoas assim (quer que gostariam que está-las fazendo ou não). Até líderes da Igreja têm falado a respeito disso, que trabalho é bom e que um emprego louvável é algo que todo homem deve ter, algo respeitável e algo em que ele pode ter orgulho e satisfação. Agora, voltando àqueles que ficam passando os dias sem trabalhar, nem estudar, nem querendo começar algo digno, consegue-se ver neles um destacamento triste. Não falo daqueles que querem mas não conseguem, falo dos que conseguiriam, se quisessem.
   
       Depois desses primeiros pensamentos, vi a passagem com olhos diferentes quando a li pela segunda vez. Fala que uma pessoa perfeita, descendida de Marte, teria pena da gente terrena que cansa e fale. Mas será que uma pessoa verdadeiramente perfeita não se cansaria? Talvez uma perfeição física, mas creio que uma parte que nos faz bons é esta capacidade de que falei anteriormente de poder nos cansar, e ter a satisfação acompanhante.

Thursday, September 22, 2016


"Nestas circunstâncias, a chegado de Lopo Alves era uma verdadeira calamidade. Velho amigo da família, companheiro de seu finado pai no exército, tinha jus o major em todos os respeitos. Impossível despedi-lo ou tratá-lo com frieza. Havia felizmente uma circunstância atenuante; o major era aparentado com Cecília, a moça dos olhos azuis; em caso de necessidade, era um voto seguro."
(Machado de Assis, A Chinela Turca, pg. 1)

       Quando eu estava lendo este conto pela primeira vez, a minha impressão foi que o tema principal seria a tendência do ser humana de facilmente se incomodar a não ser que iria receber algo para si em retorno. Mais tarde no conto, o bacharel Duarte somente fica reclamando e ficando cada vez mais irado porque ele não iria conseguir ir ao baile com a moça que namorava. Por sua vez, o major também era egoísta com as suas ações, pois até comenta que sabe que Duarte ia ao baile, mas mesmo assim está contente em fazer com que Duarte seja obrigado em ficar a noite inteira escutando o drama que tem escrito. 
       Acho interessante a última frase da passagem que citei--a que fala que ainda que Duarte não quisesse ficar para escutar esse drama, conseguiu encontrar uma coisa que se beneficiaria: o fato que Lopo Alves era parente de Cecília, e que ele poderia repagar o favor de ouvir o drama com um bom voto no caso que precisasse. É o mundo todo assim mesmo? Creio que não. Vejo todos os dias exemplos de pessoas altruístas, que fazem as coisas não por ganho pessoal, mas porque verdadeiramente querem o bem-estar das pessoas ao seu redor. Não obstante, talvez haja motivos ulteriores mesmo nesses instantes: alguém que faz serviço comunitário pode estar fazendo-o porque precisa de horas de serviço para se candidatar para uma escola de graduação, ou alguém que ajuda uma pessoa carente na rua pode fazer assim para se parecer bem na frente de uma outra pessoa. A lista continua, mas o fato fica que pode se argumentar que pessoas que agem altruisticamente sempre estão fazendo assim por um motivo diferente do que parece.   

Thursday, September 15, 2016


"Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses apontamentos valem alguma coisa, pague-me também com um túmulo de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino sermão da montanha: 'Bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados'."
(Machado de Assis, O Enfermeiro, pp. 6)

       De acordo com o mundo, há duas coisas que realmente se valem: o poder, e o poder que se compra com dinheiro. Vemos isso por todo lado, seja com escravidão que existia antigamente em muitos países (e ainda existe em alguns lugares), seja na história com monarcas e imperadores que controlavam as vidas dos outros, ou seja hoje em dia, quando a política e a economia se baseiam em gente que estão em poder. Pessoas e famílias que são menos afluentes têm bastante dificuldade, e vivem num estado constante de ansiedade, porque há conta e dívida por todo lado. Mesmo que não se importe com luxo nem ostentação (que torna cada dia mais difícil com nossa cultura de 'possuir e ser popular'), o fato simples é que dinheiro é necessário para sobreviver, até com as necessidades.

       Contrastemos isso com as palavras verídicas do Salvador: "Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra...". Certamente esta mensagem é o oposto completo do que o mundo (e Procópio) pensam. Cristo ensinou que o reino dele não é deste mundo, e que os que são mansos--ou seja, que não são ricos nem vãos--são os que herdarão a terra quando os pensamentos do mundo não prevalecerem mais.

       Entretanto, Procópio sabia tanto quanto qualquer outro o valor que o mundo coloca em dinheiro e o poder subsequente. De verdade, talvez até soubesse melhor, pois até os 42 anos, não tinha nem dinheiro nem respeito. Mas depois, ficou sabendo de como as pessoas que possuem são tratadas pelos outros. E eu creio que um dos temas mais poderosos do conto é como Procópio mudou como consequência da herança do coronel: antes, ele foi paciente e bondoso, e até planejou em doar a herança toda, mais depois de recebê-la, trocou de pensamento e doou pouco, mas guardou a maioria para si mesmo. Queria aquelas duas coisas que, de acordo com o mundo, realmente se valem.

Thursday, September 8, 2016

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas."
(Machado de Assis, A Cartomante, 16-17)

       Toda história tem partes. Uma delas é conhecida de a complicação, que frequentemente vem do erro dum personagem, que então há de consertar aquilo que fez. Creio eu que Machado de Assis neste conto mostra algumas características de pecado que constantemente nos acercam, seja que os reparemos ou não. O grande pecado de Camilo é claro no conto: ele traiu o melhor amigo dele, juntamente com a mulher deste amigo. Mais, na hora que quis sair da situação, achou que não pôde, porque estava envolvido demais. O pecado não perdoa, não vai nos afrouxar com suas mãos frias e odiosas. O perdão que recebemos vem de outro lugar, mas nunca do pecado mesmo. Para evitar esta existência triste e escura, é necessário que evitemos o pecado no primeiro lugar.
       
       Diz a última frase desta passagem que Vilela nem suspeitava traição, e como podia? Camilo e Rita eram as pessoas mais amadas, um, o melhor amigo dele, que amava desde infância, e a mulher com que tinha-se apaixonado na província. Suponho que Machado de Assis desejou mostrar que não podemos nos confortar com o que outras pessoas dizem a respeito de nossas vidas, pois não sabem tanto quanto elas pensam saber. Mesmo que sejamos gente boa e simpática e feliz, todo mundo tem três caras, como diz o provérbio japonês. O primeiro, mostramos para o mundo inteiro. O secundo, para amigos íntimos e familiares. E o terceiro, que é o mais autêntico, e aquele que somente nos mesmos sabemos.


Thursday, September 1, 2016

"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."
(Machado de Assis, A Cartomante, 15)

Essa idéia escrita por Machado de Assis me fez pensar na condição do ser humano de ter que possuir uma crença sobre tudo que pode, ou caso não tenha, de obtê-la de uma outra pessoa. Ninguém simplesmente fica do lado das coisas sem querer formar opiniões ou acreditar--geralmente em uma forma forte--em uma coisa ou a oposta. Por isso, a competição e tao forte na sociedade global; quem ganha, e o melhor. Atletas profissionais ou atores famosos podem falar de suas crenças políticas mesmo que não tenham uma educação superior nesses tópicos, e aí as pessoas que se considerem "comuns" (ou seja, as que não são famosas ou ate bem-conhecidas) vão colocando sua fé naquilo que essas pessoas disseram.

A coisa perigosa segue logicamente: se há um ponto de vista que as pessoas mais ricas e famosas geralmente têm, as outras serão influenciadas por isso, mesmo que não tenham as mesmas condições de vida. Creio que um exemplo disso se encontra na situação política americana hoje em dia. As pessoas em poder querem que todo mundo siga um pensamento mais liberal, ainda que nem sempre seja o melhor por aquelas que não estão em poder. Mas, porque é natural querer seguir pessoas bem-sucedidas, essas crenças ficam populares ao longo do tempo.

Por isso fiquei pensativo sobre Camilo. Nem crê, nem nega. Nem quer. Somente existe. Pode ser que isso o leve de ficar mais tranquilo na vida, ou pode ser que o faz ser desdenhoso para com aqueles que crêem deveras, ou não crêem, ou negam, ou não negam. Ou talvez simplesmente tira dele um pouco daquilo que nos faz humano.