Thursday, December 1, 2016

       Nesta semana, fizemos um drama sobre a cena na qual Bonitão e o Secreta conversam sobre Zé-do-Burro no bar de Galego, e depois saiam para conversar com Zé. O padre também aparece, e discute com Zé e Rosa a respeito das coisas que Zé está fazendo. Eu tive duas partes: a de ser Galego, e também do padre.
       Eu me sinto que aprendi bastante sobre os personagens por meio de poder me torná-los de uma certa maneira. Foi muito mas fácil pensar nos eventos como se realmente tivessem acontecido, ao invés de simplesmente ler a respeito deles. Por exemplo, durante a leitura me simpatizei mais com o padre, mas ao ser o padre e conversar com Rosa e Zé, eu me senti muito arrogante, então fiz um esforço a demonstrar esta arrogância à audiência. Sei que isto é simplesmente a minha interpretação pessoal, mas foi possível fazer uma interpretação mais verdadeira por meio de trocar diálogo com os outros personagens.
       Também me sinto diferente agora sobre Zé. Ao ler a peça (principalmente no início), imaginei que ele foi um homem bonzinho e simples. Mas depois de ser interpretado no meu grupo, ele é muito mais cínico e duro do que imaginava. Porém, alguns outros grupos o demonstraram como um homem ingénuo e honesto. Pude ver os eventos da peça como se eu estivesse vivendo com os personagens, e isto fez uma diferença grande para mim.

Thursday, November 17, 2016

"          Padre
E essa insistência na heresia mostra o quanto está afastado da igreja.
            Zé
Está bem, Padre. Se for assim, Deus vai me castigar. E o senhor não tem culpa.
            Padre
Tenho, sim. Sou um sacerdote. Devo zelar pela glória do Senhor e pela felicidade dos homens.
            Zé
Mas o senhor está me fazendo tão infeliz, padre!
            Padre
Não! Estou defendendo a sua felicidade, impedindo que se perca nas trevas da bruxaria.
            Zé
Padre, eu não tenho parte com o Diabo, tenho com Santa Bárbara.
            Padre
Estive o dia todo estudando este caso. Consultei livros, textos sagrados. Naquele burro está a explicação de tudo. É Satanás! Só mesmo Satanás podia levar alguém a ridicularizar o sacrifício de Jesus."
(Dias Gomes, O pagador de promessas, p. 143)

       Achei muito interessante esta conversa entre Zé-do-Burro e o Padre. Especialmente a parte quando o Padre fala que estava lendo sobre o caso nos livros sagrados. Imagino que seria o manual da Igreja Católica escrito para os padres de como lidar com casos estranhos, mas não tenho certeza. Porém, tenho visto pessoalmente como um livro pode ser interpretado em maneiras extremamente diferentes, principalmente na minha missão com todas as igrejas tão únicas, mesmo que utilizam a mesma Bíblia.
     
       Então, às vezes é difícil confiar plenamente nos livros que têm que ser interpretados. Se um livro como a Bíblia pode causar o surgimento de tantas seitas que não se aparecem, será que dá para confiar em uma só? É por causa disso que o Livro de Mórmon precisava ser escrito, para que toda a verdade do evangelho pudesse se restaurar. E ainda mais do que isso, agora temos um profeta vivo que pode nos aconselhar e providenciar uma interpretação correta da Bíblia.

Thursday, November 10, 2016

"          Zé
Tem tanta maldade no mundo. Era correr um risco muito grande, depois de ter quase cumprido a promessa. E você já pensou: se me roubassem a cruz, eu ia ter que fazer outra e vir de novo com ela nas costas da roça até aqui. Sete léguas.
          Rosa
Pra quê? Você explicava à santa que tinha sido roubado, ela não ia fazer questão.
          Zé
É o que você pensa. Quando você vai pagar uma conta no armarinho e perde o dinheiro no caminho, o turco perdoa a dívida? Uma ova!
          Rosa
Mas você já pagou a sua promessa, já trouxe uma cruz de madeira da roça até à igreja de Santa Bárbara. Está aí a igreja de Santa Bárbara, está aí a cruz. Pronto. Agora, vamos embora."
(Dias Gomes, O pagador de promessas, p. 28)

        Interessei-me bastante com esta conversa entre Zé-do-burro e a sua esposa Rosa. Acho estranho (e um pouco triste) que a vista normal hoje em dia das pessoas no mundo é a de Rosa. Ela estava tentando fazer com que Zé fizesse o mínimo para que pudesse dizer que cumpria a promessa que fizera e pronto. E creio que a maioria das pessoas iriam pensar que Zé era o estranho. É claro que muitas pessoas não iriam pensar que levar uma cruz uma distância tão longa é normal, mas depois de tê-lo feito, é só deixar a cruz aí na praça. Mas vemos Zé como o esquisito, porque queria ser seguro que a cruz entraria a porta da igreja como tinha prometido à Santa Bárbara.

       Como isto se compara aos dias de hoje? As pessoas fazem o mínimo possível. Nem sempre é o caso, claro, pois sempre há exceções. Mas via sempre no ensino médio (e até um pouco na universidade) que os estudantes querem fazer o mínimo trabalho possível e ainda receber a nota desejada. Ainda não estive numa empresa, mas ouço que é uma luta fazer com que os empregados trabalhem duramente. Até às vezes na igreja (é mais raro, felizmente), os membros fazem o menos possível para ainda estar dignos de entrar no templo ou por algum outro motivo. É uma tendência humana, isso? Creio que é. Mas Zé-do-burro é aquele que não se satisfaz assim. Acredito que o mundo seria um lugar bem melhor se seguíssemos o exemplo deste homem ficcional.

Thursday, November 3, 2016

"Podem desterrar-nos, / levar-nos / para longes terras, / vender-nos como mercadoria, / acorrentar-nos / à terra, do sol à lua e da lua ao sol, / mas seremos sempre livres / se nos deixarem a música!"
(Noémia de Sousa, "Súplica", p. 174)

       Quando eu li pela primeira vez este poema, fiquei pensativo sobre o que a música representa. Tive dificuldade inicialmente em poder pensar em alguma coisa, mas finalmente tive algumas ideias. A que eu acho fazer mais sentido no contexto é que a música representa a liberdade humana, que vai bem na cara de escravidão. Sousa era africana, então com certeza tinha experiências com a escravidão, mesmo que não fosse uma escrava. A música é aquela coisa que dá a vontade de viver, de explorar, de amar, de rir, de chorar, de fazer o mais possível com a vida. Isto é algo que talvez nunca tenha tido um efeito enorme em mim pessoalmente, pois a liberdade e a capacidade de viver é algo que sempre tenho havido. Nunca tive alguma experiência real com alguém que não tivesse a sua liberdade.

        Mas suponho que têm várias maneiras nas quais as pessoas não são livres. Vícios e dependências nas drogas e no álcool controlam as vidas de muitas. A depressão que surge de falta de balança nas químicas no cérebro tiram a vontade de mais ainda. Doença física e emocional causam muita dor. O mundo tem muitos problemas, mas desses vem uma oportunidade para ajudarmos onde podemos. Mais de uma oportunidade, uma responsabilidade. É por isso que quero ser um médico por minha carreira. Creio que posso fazer muito de bom em aliviar as pessoas fisicamente, pois assim fará uma diferença imensa em todos os aspectos da vida. Espero que eu consiga fazer o meu melhor sempre para que outros seres humanos tenham tantas oportunidades quantas possíveis, como eu tenho tido.

Thursday, October 27, 2016

"A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
          Ao passo que nós
          O que fazemos
          É macaquear
          A sintaxe lusíada"
(Manuel Bandeira, "Evocação do Recife", p. 187)

       Nossa como gostei deste poema. Servi num lugar no Brasil que tem uma fala única demais: Belo Horizonte em Minas Gerais. No meu pensar, a língua é a coisa mais proeminente que liga uma cultura. Se alguém realmente quer ter uma experiência com uma outra cultura, a primeira coisa a fazer é aprender o idioma. Vim a amar português brasileiro, e mais especificamente português mineiro. Não quer dizer que eles falavam exatamente corretos, pois até um americano sem experiência sabia o que era para falar em termos de gramática "certa", mais dava muito mais cor e personalidade à área por causa daquilo.

       Este poema também trouxe uma certa trunkesa para mim de minha própria infância, que creio ser um dos propósitos mais significativos do poema. Quando pensamos em nossas infâncias, temos a tendência de ter memórias boas, de um período mais simples em nossas vidas. Brincávamos, não tinhamos preocupações nem estresses, éramos mais próximos aos nossos familiares, sempre havia muito tempo nos dias. A vida pode ser muito complicada hoje em dia, pois há prazos de entrega, escola, carreiras, responsabilidade por todo lado, e tempo insuficiente para alcançar. Sim, a vida era bem mais simples, mas ainda assim, toda criança quer ser um adulto. Se elas somente soubessem como é bom ser criança.

Thursday, October 20, 2016

"Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
'Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!'
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

'Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!'
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

'Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!'
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

'Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci um simples vaga-lume?'"

(Machado de Assis, "Círculo vicioso", p. 130)

O círculo vicioso. Creio eu que este assunto seja o mais prevalente no mundo de hoje: difícil é encontrar pessoas que são satisfeitas com as suas circunstâncias. Mesmo que tenhamos lido sobre vários outros assuntos humanos ao longo do semestre, este parece estar na raiz de todos os demais. Por todo lado, vemos pessoas que querem ter a vida de outra gente, sejam as outras mais ricas, mais famosas, mais felizes nas carreiras, com mais tempo de relaxar, com relacionamentos mais excitantes, ou com quase qualquer coisa que o que está o fitando não parece ter.

Sabemos pelas autoridades gerais da Igreja que a mídia social contribui muito a esse problema. Quando postamos a respeito das coisas mais legais e notáveis de nossas vidas, mas mal mencionamos as coisas cotidianas ou ruins, as pessoas que nos seguem na mídia social pensarão que temos vidas legais e perfeitas, pois não vêem que nós temos lutas e momentos tristes. E, nós também veremos aquilo que as pessoas que nós seguimos na mídia social, que é agradável, e pensaremos que as nossas vidas não são tão boas mesmo. E assim vai o círculo vicioso.

Gostei muito do jeito que Machado de Assis apresentou o assunto humano por meio do artifício. Por utilizar bichos e objetos celestiais, deu um ar mais leve ao poema, talvez para demonstrar as suas crenças sobre como agimos. Pelo título, ele diz que pensa que o que acontece não parará, mas que sempre vai ser assim. E que sempre será vicioso.

Thursday, October 13, 2016

"Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade."
(Clarice Lispector, "Medo da Eternidade", p. 86)

       Mesmo que seja uma curta frase, creio que tem mais significado do que qualquer outra nesta crônica por Clarice Lispector. Para pessoas no mundo de hoje, a religião é algo que menos estão tendo a cada dia, e acredito que isto faz uma diferença para o pior. A eternidade é algo que motiva as pessoas a fazer o bem, mais isto apresenta um problema para muitas pessoas que não têm crença. Essas pessoas dizem que se alguém requer um motivo de um prêmio celestial, então essa pessoa não é boa no primeiro lugar. Ou seja, devemos ter bondade para com os outros mesmo que não creiamos em um deus ou um céu. Há verdade nesses pensamentos, pois devemos tratar uns aos outros em uma maneira bondosa seja qual for a nossa crença. Mais, muitas dessas pessoas não tratam aos outros numa forma boa. Então, mesmo que algumas pessoas só agem bondosamente por causa de religião, esses atos bons ainda fazem com que o mundo seja um lugar melhor.
     
       Há um outro lado também. Muitas pessoas que vivem retamente, que realmente fazem o seu melhor pensam que não estão à altura da eternidade, pois pensam que têm que ser perfeitas para merecer o céu. Mas sabemos que nunca mereceremos o céu, e não é para merecermos. As coisas que podemos aprender aqui, contudo, são uma outra coisa inteiramente. Temos uma grande responsabilidade de agir como devemos, e para buscar o perdão quando falhamos. Então, creio eu que Lispector estava dizendo que a eternidade é algo que não conseguimos entender quando estamos crianças, mas quando desenvolvemos a uma maturidade maior vamos entender o nosso propósito de viver.

Thursday, October 6, 2016

"É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo. Que ele atinja o telhado vermelho, e então eu poderei sair da varanda tranquilo pensando--'vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; esperei que ele atingisse um telhado vermelho, e ele o atingiu'.
Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.
Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão."
(Rubem Braga, "Homem no mar", 84)

     
       Gostei muito desta crônica. De verdade, gostei de todas as crônicas que lemos. Talvez seja porque eu consigo entender o que o autor quer dizer mais facilmente sem todos os detalhes--fico pensando nos significados demais. Mas nesta leitura, pude ver a imagem que Braga quis criar, e algumas verdades humanas também. Achei bem interessante a discussão que tivemos na aula sobre os temas desta crônica, e eu pensei naquela hora de um tema em resposta à pergunta nos dada pelo professor: porque nós como seres humanos torcemos por outras pessoas nas Olimpíadas que nem são de nosso próprio país?"

       Bem, eu gosto demais de competição atlética. E a minha resposta pessoal a essa pergunta é que eu gosto de ver outras pessoas fazer bem no atletismo, porque para mim somos todos seres humanos, não importa a cor de nossa pele nem sob qual bandeira jogamos. É claro que torço para os Estados Unidos nas competições, mas além disso torço para todos. Nesta crônica, o observador não sabia a menor coisa sobre o homem no mar, mas mesmo assim torcia por ele por ser um irmão. Creio que se nós sentíssemos assim sobre todas as pessoas, o mundo seria um lugar bem melhor para todos.

Também curti do comento feito por um outro aluno, quando ele falou que a responsabilidade que o observador menciona é que a excelência merece ser observada. Eu acrescentaria que também merece ser apreciada. Podemos tirar muita motivação dos esforços de outras pessoas, e também podemos motivar muitos a fazer coisas boas para ajudar a sociedade em si.

Thursday, September 29, 2016

"Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida."
(Clarice Lispector, A Imitação da Rosa, 4)


       Por algum motivo, quando li este conto por Clarice Lispector pela primeira vez, essa passagem me tocou mais do que qualquer outra. No início, pensei que é verdade, que uma coisa interessante de ser humano é aquela sensação boa de estar cansado, de ficar com sentimentos bons de estar fazendo coisas que valem a pena de gastar tempo as fazendo. Isso até se reflete em pessoas que não estão a fazer coisas que cansam--e certamente todos nós conhecemos pessoas assim (quer que gostariam que está-las fazendo ou não). Até líderes da Igreja têm falado a respeito disso, que trabalho é bom e que um emprego louvável é algo que todo homem deve ter, algo respeitável e algo em que ele pode ter orgulho e satisfação. Agora, voltando àqueles que ficam passando os dias sem trabalhar, nem estudar, nem querendo começar algo digno, consegue-se ver neles um destacamento triste. Não falo daqueles que querem mas não conseguem, falo dos que conseguiriam, se quisessem.
   
       Depois desses primeiros pensamentos, vi a passagem com olhos diferentes quando a li pela segunda vez. Fala que uma pessoa perfeita, descendida de Marte, teria pena da gente terrena que cansa e fale. Mas será que uma pessoa verdadeiramente perfeita não se cansaria? Talvez uma perfeição física, mas creio que uma parte que nos faz bons é esta capacidade de que falei anteriormente de poder nos cansar, e ter a satisfação acompanhante.

Thursday, September 22, 2016


"Nestas circunstâncias, a chegado de Lopo Alves era uma verdadeira calamidade. Velho amigo da família, companheiro de seu finado pai no exército, tinha jus o major em todos os respeitos. Impossível despedi-lo ou tratá-lo com frieza. Havia felizmente uma circunstância atenuante; o major era aparentado com Cecília, a moça dos olhos azuis; em caso de necessidade, era um voto seguro."
(Machado de Assis, A Chinela Turca, pg. 1)

       Quando eu estava lendo este conto pela primeira vez, a minha impressão foi que o tema principal seria a tendência do ser humana de facilmente se incomodar a não ser que iria receber algo para si em retorno. Mais tarde no conto, o bacharel Duarte somente fica reclamando e ficando cada vez mais irado porque ele não iria conseguir ir ao baile com a moça que namorava. Por sua vez, o major também era egoísta com as suas ações, pois até comenta que sabe que Duarte ia ao baile, mas mesmo assim está contente em fazer com que Duarte seja obrigado em ficar a noite inteira escutando o drama que tem escrito. 
       Acho interessante a última frase da passagem que citei--a que fala que ainda que Duarte não quisesse ficar para escutar esse drama, conseguiu encontrar uma coisa que se beneficiaria: o fato que Lopo Alves era parente de Cecília, e que ele poderia repagar o favor de ouvir o drama com um bom voto no caso que precisasse. É o mundo todo assim mesmo? Creio que não. Vejo todos os dias exemplos de pessoas altruístas, que fazem as coisas não por ganho pessoal, mas porque verdadeiramente querem o bem-estar das pessoas ao seu redor. Não obstante, talvez haja motivos ulteriores mesmo nesses instantes: alguém que faz serviço comunitário pode estar fazendo-o porque precisa de horas de serviço para se candidatar para uma escola de graduação, ou alguém que ajuda uma pessoa carente na rua pode fazer assim para se parecer bem na frente de uma outra pessoa. A lista continua, mas o fato fica que pode se argumentar que pessoas que agem altruisticamente sempre estão fazendo assim por um motivo diferente do que parece.   

Thursday, September 15, 2016


"Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses apontamentos valem alguma coisa, pague-me também com um túmulo de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino sermão da montanha: 'Bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados'."
(Machado de Assis, O Enfermeiro, pp. 6)

       De acordo com o mundo, há duas coisas que realmente se valem: o poder, e o poder que se compra com dinheiro. Vemos isso por todo lado, seja com escravidão que existia antigamente em muitos países (e ainda existe em alguns lugares), seja na história com monarcas e imperadores que controlavam as vidas dos outros, ou seja hoje em dia, quando a política e a economia se baseiam em gente que estão em poder. Pessoas e famílias que são menos afluentes têm bastante dificuldade, e vivem num estado constante de ansiedade, porque há conta e dívida por todo lado. Mesmo que não se importe com luxo nem ostentação (que torna cada dia mais difícil com nossa cultura de 'possuir e ser popular'), o fato simples é que dinheiro é necessário para sobreviver, até com as necessidades.

       Contrastemos isso com as palavras verídicas do Salvador: "Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra...". Certamente esta mensagem é o oposto completo do que o mundo (e Procópio) pensam. Cristo ensinou que o reino dele não é deste mundo, e que os que são mansos--ou seja, que não são ricos nem vãos--são os que herdarão a terra quando os pensamentos do mundo não prevalecerem mais.

       Entretanto, Procópio sabia tanto quanto qualquer outro o valor que o mundo coloca em dinheiro e o poder subsequente. De verdade, talvez até soubesse melhor, pois até os 42 anos, não tinha nem dinheiro nem respeito. Mas depois, ficou sabendo de como as pessoas que possuem são tratadas pelos outros. E eu creio que um dos temas mais poderosos do conto é como Procópio mudou como consequência da herança do coronel: antes, ele foi paciente e bondoso, e até planejou em doar a herança toda, mais depois de recebê-la, trocou de pensamento e doou pouco, mas guardou a maioria para si mesmo. Queria aquelas duas coisas que, de acordo com o mundo, realmente se valem.

Thursday, September 8, 2016

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas."
(Machado de Assis, A Cartomante, 16-17)

       Toda história tem partes. Uma delas é conhecida de a complicação, que frequentemente vem do erro dum personagem, que então há de consertar aquilo que fez. Creio eu que Machado de Assis neste conto mostra algumas características de pecado que constantemente nos acercam, seja que os reparemos ou não. O grande pecado de Camilo é claro no conto: ele traiu o melhor amigo dele, juntamente com a mulher deste amigo. Mais, na hora que quis sair da situação, achou que não pôde, porque estava envolvido demais. O pecado não perdoa, não vai nos afrouxar com suas mãos frias e odiosas. O perdão que recebemos vem de outro lugar, mas nunca do pecado mesmo. Para evitar esta existência triste e escura, é necessário que evitemos o pecado no primeiro lugar.
       
       Diz a última frase desta passagem que Vilela nem suspeitava traição, e como podia? Camilo e Rita eram as pessoas mais amadas, um, o melhor amigo dele, que amava desde infância, e a mulher com que tinha-se apaixonado na província. Suponho que Machado de Assis desejou mostrar que não podemos nos confortar com o que outras pessoas dizem a respeito de nossas vidas, pois não sabem tanto quanto elas pensam saber. Mesmo que sejamos gente boa e simpática e feliz, todo mundo tem três caras, como diz o provérbio japonês. O primeiro, mostramos para o mundo inteiro. O secundo, para amigos íntimos e familiares. E o terceiro, que é o mais autêntico, e aquele que somente nos mesmos sabemos.


Thursday, September 1, 2016

"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."
(Machado de Assis, A Cartomante, 15)

Essa idéia escrita por Machado de Assis me fez pensar na condição do ser humano de ter que possuir uma crença sobre tudo que pode, ou caso não tenha, de obtê-la de uma outra pessoa. Ninguém simplesmente fica do lado das coisas sem querer formar opiniões ou acreditar--geralmente em uma forma forte--em uma coisa ou a oposta. Por isso, a competição e tao forte na sociedade global; quem ganha, e o melhor. Atletas profissionais ou atores famosos podem falar de suas crenças políticas mesmo que não tenham uma educação superior nesses tópicos, e aí as pessoas que se considerem "comuns" (ou seja, as que não são famosas ou ate bem-conhecidas) vão colocando sua fé naquilo que essas pessoas disseram.

A coisa perigosa segue logicamente: se há um ponto de vista que as pessoas mais ricas e famosas geralmente têm, as outras serão influenciadas por isso, mesmo que não tenham as mesmas condições de vida. Creio que um exemplo disso se encontra na situação política americana hoje em dia. As pessoas em poder querem que todo mundo siga um pensamento mais liberal, ainda que nem sempre seja o melhor por aquelas que não estão em poder. Mas, porque é natural querer seguir pessoas bem-sucedidas, essas crenças ficam populares ao longo do tempo.

Por isso fiquei pensativo sobre Camilo. Nem crê, nem nega. Nem quer. Somente existe. Pode ser que isso o leve de ficar mais tranquilo na vida, ou pode ser que o faz ser desdenhoso para com aqueles que crêem deveras, ou não crêem, ou negam, ou não negam. Ou talvez simplesmente tira dele um pouco daquilo que nos faz humano.