" Zé
Tem tanta maldade no mundo. Era correr um risco muito grande, depois de ter quase cumprido a promessa. E você já pensou: se me roubassem a cruz, eu ia ter que fazer outra e vir de novo com ela nas costas da roça até aqui. Sete léguas.
Rosa
Pra quê? Você explicava à santa que tinha sido roubado, ela não ia fazer questão.
Zé
É o que você pensa. Quando você vai pagar uma conta no armarinho e perde o dinheiro no caminho, o turco perdoa a dívida? Uma ova!
Rosa
Mas você já pagou a sua promessa, já trouxe uma cruz de madeira da roça até à igreja de Santa Bárbara. Está aí a igreja de Santa Bárbara, está aí a cruz. Pronto. Agora, vamos embora."
(Dias Gomes, O pagador de promessas, p. 28)
Interessei-me bastante com esta conversa entre Zé-do-burro e a sua esposa Rosa. Acho estranho (e um pouco triste) que a vista normal hoje em dia das pessoas no mundo é a de Rosa. Ela estava tentando fazer com que Zé fizesse o mínimo para que pudesse dizer que cumpria a promessa que fizera e pronto. E creio que a maioria das pessoas iriam pensar que Zé era o estranho. É claro que muitas pessoas não iriam pensar que levar uma cruz uma distância tão longa é normal, mas depois de tê-lo feito, é só deixar a cruz aí na praça. Mas vemos Zé como o esquisito, porque queria ser seguro que a cruz entraria a porta da igreja como tinha prometido à Santa Bárbara.
Como isto se compara aos dias de hoje? As pessoas fazem o mínimo possível. Nem sempre é o caso, claro, pois sempre há exceções. Mas via sempre no ensino médio (e até um pouco na universidade) que os estudantes querem fazer o mínimo trabalho possível e ainda receber a nota desejada. Ainda não estive numa empresa, mas ouço que é uma luta fazer com que os empregados trabalhem duramente. Até às vezes na igreja (é mais raro, felizmente), os membros fazem o menos possível para ainda estar dignos de entrar no templo ou por algum outro motivo. É uma tendência humana, isso? Creio que é. Mas Zé-do-burro é aquele que não se satisfaz assim. Acredito que o mundo seria um lugar bem melhor se seguíssemos o exemplo deste homem ficcional.
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